Um dia eu tive uma grande
decepção. Descobri que quem eu achava que era o amor da minha vida - e cujo
sentimento eu alimentara por mais de um ano depois do fim na esperança de que
um dia ele se daria conta da besteira que fez e voltaria pra mim – tinha me
traído de todas as formas possíveis e agora estava muito bem e feliz em um novo
relacionamento, com uma namoradinha grávida e a promessa de uma vida nova com
uma família que se iniciava em um ninho de amor. Eu não estava assim, mesmo, muito pelo
contrário. Sozinha, cercada de confusões, sem conseguir me relacionar
amorosamente com ninguém desde então e cheia de traumas; quando recebi o email
do ex-amor-da-minha-vida, a informação me caiu como uma bomba, e eu não
conseguia fazer nada além de chorar, lamentar minha sorte e chorar um pouco
mais.
Nesse dia não consegui ir
trabalhar, não consegui botar minhas ideias em ordem. A informação martelava na
minha cabeça e me sufocava num ponto em que parecia que eu não ia mesmo
conseguir mais respirar. Com a cara inchada, mãos trêmulas e um cansaço que
parecia ter se apoderado de todo o meu corpo, achei que precisava desabafar,
falar com alguém, botar aquilo tudo pra fora. E aí liguei para um amigo que,
naquela época, era quem sabia melhor da história toda e estava mais próximo de
mim, e cuja presença me enchia de alegria e conforto.
Nesse dia esse meu amigo
deixou tudo o que estava fazendo e foi pra minha casa me fazer companhia. Ele
me ouviu, me deixou chorar, me abraçou, disse que aquilo tudo ia passar, que um
dia eu esqueceria essa história, ia olhar para trás e rir desse drama todo em
que eu me encontrava. Que meu ex era um babaca e não valia uma lágrima minha,
que eu era uma garota muito bonita e muito legal para desperdiçar meu tempo
chorando por ele e todas aquelas coisas que você diz para alguém que foi
chutado, traído, sacaneado, vilipendiado e agora está caído na sarjeta
recebendo uma mijada de um cachorro vira-lata. Mas ele, esse meu amigo, disse
isso tudo de coração, e eu senti um conforto, um calorzinho de aconchego na
alma, que eu provavelmente não sentiria com nenhuma outra pessoa naquele
momento.
Aí ele me levou para
almoçar e lembro que, no restaurante a quilo, ele, que já tinha almoçado, me
pediu para pegar três corações de galinha pra ele, enquanto ficava tentando me
fazer rir mostrando como os brócolis americanos eram mini-árvores e perguntando
se eu não queria comer uma arvorezinha. E aí fomos para a minha casa e
conversamos mais, e até nos divertimos e rimos. Depois ele me levou para a
praia e, no fim da tarde de uma quarta-feira de setembro, no frescor de um dia
ensolarado de início de primavera no Arpoador, o céu ficou todo alaranjado e o
sol foi se pondo devagarinho, bem redondo, lá na linha do horizonte, no mar.
Lembro de segurar a mão dele e agradecer por ter me ajudado a passar por aquele
dia que tinha sido tão difícil, e me sentir extremamente feliz por ter a sorte
de ter um amigo assim, que se preocupava comigo e realmente se importava.
Quando penso nisso tudo
hoje, tanto tempo depois, fico alegre que tudo tenha acontecido como aconteceu
naquele dia fatídico em que meu coração foi partido em mil pedacinhos. Porque
um momento ruim como aquele me trouxe uma verdadeira alegria, de descobrir que
existe um amor que transcende qualquer sentimento romântico, que não acaba
quando surge uma garota nova, quando a rotina desgasta o relacionamento ou você
simplesmente já não vê mais graça em dormir e acordar com a mesma pessoa todos
os dias. É o amor que você sabe que, não importa o que aconteça, sempre vai
estar lá e não se desgasta. Esse amor é a amizade, o maior amor que existe e
aquele que é mais importante cultivar e manter entre todos os outros. Porque se
encantar com um belo sorriso e um joguinho de sedução é fácil, mas não é
qualquer um que vai estar ali para olhar pro seu rosto inchado e cheio de
catarro e ter saco de te aguentar na merda com um sorriso paciente dizendo que
tudo vai ficar bem. E esses poucos, esses raros, esses amores de verdade, a
gente tem que valorizar muito.
Mas o tempo passa, as
coisas mudam, as pessoas namoram, vão morar juntas, casam. Eu e esse meu amigo
brigamos e fizemos as pazes tantas vezes, tanta coisa aconteceu, cada um foi viajar
para um lado, pessoas entraram nas nossas vidas e saíram, pessoas entraram para
ficar. Muita coisa mudou, já não estamos mais tão próximos. Eu sinto saudade,
às vezes tenho ciúmes, às vezes nem ligo. Mas sei que, apesar de tudo, ele
sempre vai estar lá. E eu sempre vou estar lá para ele, não importa o ciúme,
não importa quem mais esteja lá, não importa o trabalho, não importa como as
coisas estejam no momento. Eu estarei lá para ele, e sei que ele também estará
lá para mim quando o mundo estiver caindo e eu precisar daquele empurrãozinho
para seguir adiante. E para nunca esquecer disso, guardo aquele pôr-do-sol de
uma tarde em Ipanema muito bem guardado em uma caixinha lá num canto bem
reservado do meu coração, para uma dessas emergências, para lembrar quando o
mundo parecer apertado demais para continuar respirando.


