terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Existe amor de verdade


Um dia eu tive uma grande decepção. Descobri que quem eu achava que era o amor da minha vida - e cujo sentimento eu alimentara por mais de um ano depois do fim na esperança de que um dia ele se daria conta da besteira que fez e voltaria pra mim – tinha me traído de todas as formas possíveis e agora estava muito bem e feliz em um novo relacionamento, com uma namoradinha grávida e a promessa de uma vida nova com uma família que se iniciava em um ninho de amor.  Eu não estava assim, mesmo, muito pelo contrário. Sozinha, cercada de confusões, sem conseguir me relacionar amorosamente com ninguém desde então e cheia de traumas; quando recebi o email do ex-amor-da-minha-vida, a informação me caiu como uma bomba, e eu não conseguia fazer nada além de chorar, lamentar minha sorte e chorar um pouco mais.

Nesse dia não consegui ir trabalhar, não consegui botar minhas ideias em ordem. A informação martelava na minha cabeça e me sufocava num ponto em que parecia que eu não ia mesmo conseguir mais respirar. Com a cara inchada, mãos trêmulas e um cansaço que parecia ter se apoderado de todo o meu corpo, achei que precisava desabafar, falar com alguém, botar aquilo tudo pra fora. E aí liguei para um amigo que, naquela época, era quem sabia melhor da história toda e estava mais próximo de mim, e cuja presença me enchia de alegria e conforto.

Nesse dia esse meu amigo deixou tudo o que estava fazendo e foi pra minha casa me fazer companhia. Ele me ouviu, me deixou chorar, me abraçou, disse que aquilo tudo ia passar, que um dia eu esqueceria essa história, ia olhar para trás e rir desse drama todo em que eu me encontrava. Que meu ex era um babaca e não valia uma lágrima minha, que eu era uma garota muito bonita e muito legal para desperdiçar meu tempo chorando por ele e todas aquelas coisas que você diz para alguém que foi chutado, traído, sacaneado, vilipendiado e agora está caído na sarjeta recebendo uma mijada de um cachorro vira-lata. Mas ele, esse meu amigo, disse isso tudo de coração, e eu senti um conforto, um calorzinho de aconchego na alma, que eu provavelmente não sentiria com nenhuma outra pessoa naquele momento.

Aí ele me levou para almoçar e lembro que, no restaurante a quilo, ele, que já tinha almoçado, me pediu para pegar três corações de galinha pra ele, enquanto ficava tentando me fazer rir mostrando como os brócolis americanos eram mini-árvores e perguntando se eu não queria comer uma arvorezinha. E aí fomos para a minha casa e conversamos mais, e até nos divertimos e rimos. Depois ele me levou para a praia e, no fim da tarde de uma quarta-feira de setembro, no frescor de um dia ensolarado de início de primavera no Arpoador, o céu ficou todo alaranjado e o sol foi se pondo devagarinho, bem redondo, lá na linha do horizonte, no mar. Lembro de segurar a mão dele e agradecer por ter me ajudado a passar por aquele dia que tinha sido tão difícil, e me sentir extremamente feliz por ter a sorte de ter um amigo assim, que se preocupava comigo e realmente se importava.

Quando penso nisso tudo hoje, tanto tempo depois, fico alegre que tudo tenha acontecido como aconteceu naquele dia fatídico em que meu coração foi partido em mil pedacinhos. Porque um momento ruim como aquele me trouxe uma verdadeira alegria, de descobrir que existe um amor que transcende qualquer sentimento romântico, que não acaba quando surge uma garota nova, quando a rotina desgasta o relacionamento ou você simplesmente já não vê mais graça em dormir e acordar com a mesma pessoa todos os dias. É o amor que você sabe que, não importa o que aconteça, sempre vai estar lá e não se desgasta. Esse amor é a amizade, o maior amor que existe e aquele que é mais importante cultivar e manter entre todos os outros. Porque se encantar com um belo sorriso e um joguinho de sedução é fácil, mas não é qualquer um que vai estar ali para olhar pro seu rosto inchado e cheio de catarro e ter saco de te aguentar na merda com um sorriso paciente dizendo que tudo vai ficar bem. E esses poucos, esses raros, esses amores de verdade, a gente tem que valorizar muito.

Mas o tempo passa, as coisas mudam, as pessoas namoram, vão morar juntas, casam. Eu e esse meu amigo brigamos e fizemos as pazes tantas vezes, tanta coisa aconteceu, cada um foi viajar para um lado, pessoas entraram nas nossas vidas e saíram, pessoas entraram para ficar. Muita coisa mudou, já não estamos mais tão próximos. Eu sinto saudade, às vezes tenho ciúmes, às vezes nem ligo. Mas sei que, apesar de tudo, ele sempre vai estar lá. E eu sempre vou estar lá para ele, não importa o ciúme, não importa quem mais esteja lá, não importa o trabalho, não importa como as coisas estejam no momento. Eu estarei lá para ele, e sei que ele também estará lá para mim quando o mundo estiver caindo e eu precisar daquele empurrãozinho para seguir adiante. E para nunca esquecer disso, guardo aquele pôr-do-sol de uma tarde em Ipanema muito bem guardado em uma caixinha lá num canto bem reservado do meu coração, para uma dessas emergências, para lembrar quando o mundo parecer apertado demais para continuar respirando. 

sábado, 19 de maio de 2012

Pedro Juan Gutiérrez: “tipo Bukowski’ - só que ruim, colega



Peguei amizade com o dono do sebo aqui perto de casa. Temos o gosto para leitura mais ou menos parecido e conversamos, claro, sobre livros, principalmente de autores como Steinbeck, Kerouac, Fante e Bukowski, nosso favorito. Dia desses, comentando que eu achava que o velho safado deveria ter escrito mais ao longo da vida, para termos mais coisas pra ler, ele me falou, e não foi o primeiro, que eu devia experimentar alguma coisa do Pedro Juan Gutiérrez, um autor cubano nascido em 1950 que, segundo ele, escrevia de um jeito parecido com o do Bukowski. E acabei pegando “O Rei de Havana”, um dos mais famosos dele.
Sei que até soa estranho, mas adoro livro que, logo no comecinho, tem putaria, desesperança e personagens confusos e miseráveis. Você pensa logo que a obra promete e, nesse caso, “O Rei de Havana” prometia mesmo: a história já começa com a descrição bem direta da vida desgraçada de Reynaldo e seu irmão Nelson com a mãe obesa e maluca e a avó muda num apartamento de um cômodo em Havana. Nas primeiras páginas uma grande tragédia acontece, a família toda morre e Rey, único sobrevivente, é levado para um reformatório com 13 anos, acusado do assassinato da galera. Lá ele sofre, aprende a se virar e bla bla bla como em todo filme/livro/história de cadeia, até que foge e cai na vida das ruas sujas da capital cubana.

É bem nesse momento aí que você pensa que a história vai ficar agitada e esse vai ser um daqueles livros que vai ler em um dia e ficar até triste quando acabar. Mas aí, logo, logo, você descobre que não. Rey era um pateta. Ele não era mau, não era esperto, malandro nem esforçado, no sentido de se virar na vida. Ele não era engraçado nem pensava nada de interessante. Só que ele tinha um pau enorme e lindo, o que fez com que as pessoas (no sentido amplo da palavra) que ele comia o apelidassem de “O Rei de Havana” - daí o belo título do livro. E então a “história” segue: sexo após sexo, até o final pretensamente “chocante” – e altamente previsível - que o autor tenta criar.
De fato, os livros do Bukowski falam do submundo americano, de gente pobre, tarada, suja e desesperançada. Que só anda por aí trepando, correndo de trabalho e se entorpecendo de vinho para fugir da realidade. Descreve, por exemplo, o sexo com uma mulher mais velha, que tinha os pelos pubianos grisalhos e uma verruga triste na vagina, como em “Misto Quente”; ou como uma prostituta gorda e agressiva fez Hank Chinaski, seu alter ego adorável, gozar à força, masturbando-o violentamente num quarto de hotel barato, como em “Factotum”. São descrições perfeitas de cenas cruas, que você imagina direitinho, se diverte, se emociona, às vezes até se excita ou sente nojo, mas, invariavelmente, acaba desenvolvendo uma afeição pelo personagem e sentindo vontade de pagar uma caneca de vinho pra ele. E mais que isso, no meio de toda essa sacanagem, o velho Buko é capaz de escrever sobre os relacionamentos humanos com uma sensibilidade cruel e disfarçada que, se você não tomar cuidado, pode acabar te emocionando. Sempre lembro, por exemplo, desse trecho de “Mulheres”, talvez sua obra mais famosa:


“Sentia-me contente por não estar apaixonado, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo. As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes suscetíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o senso de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se, mesmo, assassinas.”


É grosseiro, é cru, mas tem um senso de humor e uma sensibilidade inegáveis. O personagem tem alma, ele pensa. O Rey, de Havana, o tal Rei de Havana, não pensa, não sente, não faz nada. É como uma anêmona com um piruzão. E como tal, só come e come. Não te faz rir nem desperta qualquer empatia. Quando o livro acaba você só pensa: “hum, que babaca”.  E aquela sensação de tempo perdido.
Na contracapa da edição da Companhia das Letras, a que eu li, tem a seguinte frase de Pedro Juan Gutiérrez: “Alguns dirão que meus textos são pornográficos, outros que são eróticos; alguns dizem que são religiosos e outros que são políticos numa segunda leitura. Eu não sei”. Eu também não sei. Religiosos não são, políticos também não (ou descrever o lugar como uma merda significa uma crítica política?). Pornográficos, sim, só. Eróticos, nunca. Chatos, piolhos, genitálias com cheiro de azedo e gosma branca, gente sem banho há semanas transando num lixão. Isso só deve ser erótico para um grupo bem restrito de pessoas com um fetiche específico. Para mim e, imagino, boa parte dos leitores, é só nojento e chato mesmo.

Claro que podem me dizer que eu deveria ler outros livros do cara pra poder construir melhor minha opinião. Mas não, não mesmo, não há tempo para tal. Aliás, eu devia ter imaginado. Sério, olha a foto dele:

Wannabe Hunter S. Thompson. Pose de machão, junkie, cara de mau. Forçado, tudo forçado. E na escrita não seria diferente: forçou, forçou, mas no fim das contas, um livrinho bem insosso. Como Bukowski, só que não.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Caro Deus,

Como já não sabia que autoridade contatar, resolvi escrever esta carta para apresentar o assunto diretamente ao senhor. Não saber com quem falar, aliás, é a grande razão do meu problema, que parece que não vai ter solução enquanto não obtiver uma resposta diretamente sua. Por isso, como sei que seu tempo é precioso e já tem muita gente lhe pedindo toda sorte de coisa, vou direto ao caso para resolvermos logo isso.

O negócio é o seguinte: quando eu tinha uns 12 anos, fiz uma promessa para obter uma graça. Depois precisei de outra graça e fiz outra promessa em cima da promessa que eu já tinha feito, ou seja, aumentei a penitência. E aí surgiram outras e outras necessidades – é, eu andava com mania de promessas e meio tensa naquela época – e acabou que eu aumentei a promessa e disse que cumpriria a penitência todos os dias, até o fim dos meus dias. E depois até prometi que não faria mais promessas. O que eu combinei de fazer em agradecimento não era nada de mais, mas algo que exigia compromisso e tomava tempo. Como obtive as graças pedidas, fui pagando a promessa por um tempo, mas conforme cresci, foi ficando cada vez mais complicado. A vida adulta tem muito trabalho, muitas coisas para fazer, muito cansaço, fica difícil, sabe como é. Aí a minha dívida com você foi acumulando, acumulando e, agora, assim como os pequenos países africanos e a  divida externa, não consigo mais pagar.

Pra falar a verdade, fazia tempo que eu não pensava nisso, já tinha deixado pra trás como uma promessa de criança, achando que o senhor relevaria. Mas sabe, Deus, um conhecido morreu jovem outro dia e tive a noção da finitude da vida. Aí fiquei com medo de morrer de repente também e deixar essa dívida em aberto contigo. Sabe como é, meu caro, morro de medo de virar alma penada. Fui criada numa família católica, cercada pela ameaça da culpa católica, o pecado original, a necessidade de ser temente ao senhor e toda aquela conversa que eles usam pra fazer bullying conosco nas missas e nos manter apavorados enquanto crescemos. Minha santa vovozinha, muito devotada à Igreja, pouco antes de partir deste mundo, até me recomendou que eu procurasse um padre para explicar minha situação e pedir que ele me indicasse uma outra penitência para substituir a tal penitência que eu não estava conseguindo cumprir.

Mas como o senhor – aliás, posso te chamar de você? - já deve ter se dado conta, existe muita burocracia na sua organização. Até pensei em falar mesmo com um subordinado seu, mas sabe de uma coisa? Acho que não ia adiantar nada, porque não acho que esses senhores, por mais instruídos e cientes dos trâmites da organização que sejam, não têm vivência nem integridade para me dizer o que fazer, não são mais puros ou merecedores da sua graça, sua amizade e complacência do que eu, minha falecida avó ou aquele cara ali parado na esquina, que vejo aqui da janela. Desculpa a sinceridade, mas já que estamos conversando sobre tudo mesmo, devo aproveitar a ocasião para abrir o jogo e dizer que uma outra questão importante nessa história é o fato de eu ter desistido de vez de tentar acreditar nos preceitos da Igreja. Não gosto da forma como o pessoal lá se refere a você – basicamente, como um cara de quem a gente tem de ter medo; da maneira como tratam as mulheres (por que não deixar as freiras rezar missas, por exemplo?); dessa história de padre não poder casar; de toda essa pompa que cerca o papa e os bispos; do fato de acobertarem casos de pedofilia, de serem contra o uso de contraceptivos e do sexo ser visto como uma fonte de pecado; e por aí vai. Se eu não acredito, não gosto de nada disso e não tenho nenhuma identificação com essa instituição, o quão hipócrita eu seria se recorresse a eles para resolver essa questão?

Mas espera aí, Deus, não me entenda errado. Acho que acredito mais em você do que muita gente que eu conheço. Mas não como aquele velhinho barbudo, de voz grossa e com um cajado, que de vez em quando troveja umas mensagens para os mensageiros que seleciona, como está escrito na Bíblia que você fez com o Noé. Na minha concepção, você é principalmente bondoso, paciente e cheio de amor para com a sua criação, que como seres finitos e tapados que somos, é passível de erros e acertos, num eterno aprendizado. Acredito que você quer que a gente aprenda sempre e, para isso, nos permite voltar muitas e muitas vezes, de muitas formas, até que possamos aprender e virar seres mais evoluídos. Afinal, isso é muito mais produtivo do que nos condenar a ficar tostando, borbulhando nuns caldeirões pra lá do centro da Terra, com umas criaturas chifrudas nos espetando com tridentes, não é? Se você é amor, bondade e compaixão, não faria isso com seus filhos. Afinal, um cara com tanto senso de humor, capaz de criar um bicho estapafúrdio como o ornitorrinco, não seria afeito a tanto sadismo.

E acima de tudo, Deus, nem acho que você seja mesmo uma pessoa. Correndo o risco de soar terrivelmente clichê, sei que você é tudo: está nas manhãs radiantes de outono, nos acordes das músicas divertidas que nos fazem dançar, nos bons livros, numa boa picanha mal-passada que o garçom serve quando mais temos fome, no banho geladinho de cachoeira no verão, no cheiro da nossa mãe quando somos pequenos e ela chega do trabalho, no pé de feijão que nasce tão bonitinho quando botamos um caroço no algodão embebido com água. Nos problemas que acontecem e nos fazem aprender. E até nos prazeres do sexo, no encontro com o outro, na troca de carinhos, na intimidade, no amor do homem com a mulher. Ou do homem com o homem e da mulher com a mulher. Porque você nos fez assim, imperfeitos, complexos, livres para aprender, para errar, tentar de novo e fazer tudo novamente e mais uma vez até nos acertarmos.

E diante de tudo isso, não faz sentido falar com um intermediário seu para ele sugerir que eu reze 5 Ave-Marias e 3 Pais-Nossos. Sabe, acho essas duas orações lindíssimas, mas imagino que você ia querer mais do que isso, algo mais útil, mais significativo. Que eu crie alguma coisa, que eu seja mais compreensiva, que procure sempre me manter aprendendo, criando, sorrindo. Então, aqui entre a gente, vamos resolver logo essa história? Para isso eu lhe proponho: você, ó Energia Criadora Divina, perdoa a minha dívida, me libertando da minha penitência e da culpa, do pecado original e aquela coisa toda que o cristianismo bota desde cedo na cabeça dos pequeninos; e em troca me comprometo a tentar sempre ser uma pessoa tolerante, capaz de perceber as sutilezas e o encanto da criação, ter paciência com meus irmãos, cuidado com o mundo que você nos deu e disposição para aproveitar a vida que você me deu com tanto carinho da forma mais criativa e apreciativa possível. Que tal? Veja bem, também é um compromisso diário e perpétuo, mas ao meu ver, e acredito que ao seu também (humildemente deduzindo, claro), muito mais útil.

Então fica aqui a minha mensagem. Como não sei a quem entregar, mas assumindo que você seja a eletricidade que alimenta este notebook, a brisa que refresca esta sala e, permita-me a ousadia, seja até meus olhos, minha boca e eu mesma, inteirinha, assim como todos os meus amigos e seres com quem me relaciono, considerarei este comunicado como entregue. Ok? Peço encarecidamente que, caso haja uma réplica, queixa ou objeção, me envie algum sinal que eu seja capaz de compreender, para que eu possa me acertar.

Sem mais, certa de sua compreensão, fico por aqui.

Com carinho,

TF

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Os zumbis, esses amores




Aproveitando esse clima de Halloween, acabei ainda há pouco de assistir Terra dos Mortos, um dos filmes de zumbis mais interessantes do Romero, lançado em 2005. Aí fiquei pensando na razão de eu gostar tanto de filmes de mortos-vivos ao ponto de assistir os mesmos milhares de vezes e sempre preferir essas histórias a qualquer outra coisa que esteja passando na TV. 

Daí me ocorreu que a principal razão de adorar zumbis e suas aventuras talvez seja o fato de eu ser uma pessoa extremamente prática, que não gosta de dramas nem de frescurinhas. E quem pode ser mais prático e menos fresco do que um zumbi esfaimado sedento por sangue? Pensando mais a fundo, me dei conta de que chego a nutrir por eles um profundo carinho. Isso porque, veja bem, são as criaturas mais honestas que já se viu, tanto no mundo da fantasia quanto na vida real. Zumbis são maus, sujos, fedidos, ensanguentados. E são aquilo sempre, sem hipocrisia, sem esconder de ninguém nem fingir ser de outro jeito. Zumbis não se apaixonam, não são fofinhos nem bem vestidos, e só vão brilhar no escuro se alguém jogar alguma substância radioativa neles.

Obstinados, são extremamente francos, práticos e retos em seu propósito, que é pura e simplesmente comer carne humana, sem enrolação. Matar, despedaçar, morder, estraçalhar. Por um belo naco de carne, são capazes de vencer qualquer desafio, se arrastar pelo chão por quilômetros, vencer qualquer barreira. Sem nunca desistir, incansáveis e eternamente perseverantes em seu objetivo de comer um pedaço fresquinho de cérebro. E por causa disso, os zumbis não podem perder tempo com bobagens, como falar, raciocinar ou preparar armadilhas. E são incrivelmente ágeis: mesmo desengonçados, semi-decompostos, faltando pedaços e se arrastando sobre uma perna côxa, são rápidos e sempre conseguem alcançar humanos saudáveis e em perfeitas faculdades mentais. Um verdadeiro exemplo de superação.


Além disso, outra grande vantagem dos zumbis é o fato de não serem chatos, mal que acomete grande parte dos humanos vivos hoje em dia. Eles não têm peso na consciência nem pena de ninguém, não ficam sofrendo dilemas morais nem choramingando e reclamando pelos cantos como outras criaturas fantásticas (ou não) por aí. Se um zumbi pudesse optar entre ser vegetariano ou comer cérebros, ainda assim ele escolheria a apetitosa, ensanguentada e fibrosa carne humana. Porque zumbis não estão nem aí pra porra nenhuma, não tentam ser politicamente corretos. Não se preocupam com a opinião pública nem dão a mínima para o que vão pensar deles, porque não têm tempo a perder com besteiras.


Mas ainda assim, esses mortinhos-vivos são naturalmente seres ecológicos e perfeitamente integrados com o meio ambiente em que estão inseridos. Isso porque os zumbis só andam a pé, não desperdiçam água com banhos, não sobrecarregam os sistemas de esgoto e nem comem produtos industrializados. Se dependesse deles, a mata atlântica estaria bem mais conservada, os rios ainda estariam limpos e haveria bem menos emissão de CO2 na atmosfera. Outro ponto que demonstra a óbvia superioridade de caráter dos zumbis é o fato de não ligarem para as aparências. Você pode reparar que eles estão sempre juntos, mesmo que uns sejam gordos, outros já estejam meios podres e alguns, ainda, tenham um pedaço da cabeça ou demais membros faltando. Porque eles são superiores, não discriminam, não praticam bullying. Sempre vão aceitar um novo membro no bando, unidos fraternalmente pelo objetivo comum: mioooooolos.


No entanto, mesmo sendo assim, tão receptivos, ambientalistas e engajados com a causa, os zumbis não vão te pentelhar para comer menos gordura, para trocar seu carro a gasolina por um híbrido e nem te aconselhar a estudar mais ou fechar a torneira quando escovar os dentes. E também não vão tentar te impedir de fazer aquele bullyingzinho de leve com aquele seu amiguinho mais descompensado, nem te crucificar porque você fez piada com o câncer do Lula. Simplesmente porque zumbis não dão a mínima pra você, eles querem mais é que você se foda, só querem comer o seu cérebro e ficar bem tranquilos no canto deles. Porque zumbis são descomplicados e bem claros, não falam meias-palavras, não esperam que você compreenda suas sutilezas, não guardam mágoas nem alimentam rancorezinhos. Zumbis nunca serão confundidos, não te trairão nem nunca, nunca, ficarão magoados à toa. Eles são fodões. E sabem disso. Ah, tantas lições que podemos aprender com eles!

sábado, 29 de outubro de 2011

Começando de novo

Mais uma tentativa - de umas outras 30 - de criar um blog pra registrar pensamentos e bobeiras aleatórias do cotidiano. Desde que eu tinha uns 12 anos venho tentando fazer blogs... já fiz uns que duraram meses, outros que duraram semanas e outros que duraram só alguns dias. Também tem um, o Por aí vamos , que já tem uns 3 anos, mas só atualizo quando viajo, então como isso não acontece com frequência, resolvi criar este aqui para me obrigar a escrever coisas que não tenham a ver com saúde, doenças, coisinhas fofinhas e outros assuntos (por vezes bem pentelhos) sobre os quais preciso discorrer diariamente no trabalho. Vamos ver quanto tempo vai durar...