Peguei amizade com o dono do sebo
aqui perto de casa. Temos o gosto para leitura mais ou menos parecido e conversamos,
claro, sobre livros, principalmente de autores como Steinbeck, Kerouac, Fante e
Bukowski, nosso favorito. Dia desses, comentando que eu achava que o velho
safado deveria ter escrito mais ao longo da vida, para termos mais coisas pra
ler, ele me falou, e não foi o primeiro, que eu devia experimentar alguma coisa do Pedro Juan
Gutiérrez, um autor cubano nascido em 1950 que, segundo ele, escrevia de um
jeito parecido com o do Bukowski. E acabei pegando “O Rei de Havana”, um dos
mais famosos dele.
Sei que até soa estranho, mas
adoro livro que, logo no comecinho, tem putaria, desesperança e personagens
confusos e miseráveis. Você pensa logo que a obra promete e, nesse caso, “O Rei
de Havana” prometia mesmo: a história já começa com a descrição bem direta da
vida desgraçada de Reynaldo e seu irmão Nelson com a mãe obesa e maluca e a avó
muda num apartamento de um cômodo em Havana. Nas primeiras páginas uma grande
tragédia acontece, a família toda morre e Rey, único sobrevivente, é levado
para um reformatório com 13 anos, acusado do assassinato da galera. Lá ele
sofre, aprende a se virar e bla bla bla como em todo filme/livro/história de
cadeia, até que foge e cai na vida das ruas sujas da capital cubana.
É bem nesse momento aí que você
pensa que a história vai ficar agitada e esse vai ser um daqueles livros que vai
ler em um dia e ficar até triste quando acabar. Mas aí, logo, logo, você
descobre que não. Rey era um pateta. Ele não era mau, não era esperto, malandro
nem esforçado, no sentido de se virar na vida. Ele não era engraçado nem
pensava nada de interessante. Só que ele tinha um pau enorme e lindo, o que fez
com que as pessoas (no sentido amplo da palavra) que ele comia o apelidassem de
“O Rei de Havana” - daí o belo título do livro. E então a “história” segue:
sexo após sexo, até o final pretensamente “chocante” – e altamente previsível -
que o autor tenta criar.
De fato, os livros do Bukowski
falam do submundo americano, de gente pobre, tarada, suja e desesperançada. Que
só anda por aí trepando, correndo de trabalho e se entorpecendo de vinho para
fugir da realidade. Descreve, por exemplo, o sexo com uma mulher mais velha,
que tinha os pelos pubianos grisalhos e uma verruga triste na vagina, como em “Misto
Quente”; ou como uma prostituta gorda e agressiva fez Hank Chinaski, seu alter ego
adorável, gozar à força, masturbando-o violentamente num quarto de hotel barato,
como em “Factotum”. São descrições perfeitas de cenas cruas, que você imagina
direitinho, se diverte, se emociona, às vezes até se excita ou sente nojo, mas,
invariavelmente, acaba desenvolvendo uma afeição pelo personagem e sentindo
vontade de pagar uma caneca de vinho pra ele. E mais que isso, no meio de toda
essa sacanagem, o velho Buko é capaz de escrever sobre os relacionamentos
humanos com uma sensibilidade cruel e disfarçada que, se você não tomar
cuidado, pode acabar te emocionando. Sempre lembro, por exemplo, desse trecho
de “Mulheres”, talvez sua obra mais famosa:
“Sentia-me contente por não estar apaixonado, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo. As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes suscetíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o senso de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se, mesmo, assassinas.”
É grosseiro, é cru, mas tem um senso
de humor e uma sensibilidade inegáveis. O personagem tem alma, ele pensa. O
Rey, de Havana, o tal Rei de Havana, não pensa, não sente, não faz nada. É como
uma anêmona com um piruzão. E como tal, só come e come. Não te faz rir nem desperta
qualquer empatia. Quando o livro acaba você só pensa: “hum, que babaca”. E aquela sensação de tempo perdido.
Na contracapa da edição da
Companhia das Letras, a que eu li, tem a seguinte frase de Pedro Juan
Gutiérrez: “Alguns dirão que meus textos são pornográficos, outros que são
eróticos; alguns dizem que são religiosos e outros que são políticos numa
segunda leitura. Eu não sei”. Eu também não sei. Religiosos não são,
políticos também não (ou descrever o lugar como uma merda significa uma crítica
política?). Pornográficos, sim, só. Eróticos, nunca. Chatos, piolhos, genitálias
com cheiro de azedo e gosma branca, gente sem banho há semanas transando num
lixão. Isso só deve ser erótico para um grupo bem restrito de pessoas com um
fetiche específico. Para mim e, imagino, boa parte dos leitores, é só nojento e
chato mesmo.
Claro que podem me dizer que eu
deveria ler outros livros do cara pra poder construir melhor minha opinião. Mas
não, não mesmo, não há tempo para tal. Aliás, eu devia ter imaginado. Sério, olha
a foto dele:
Wannabe Hunter S. Thompson. Pose
de machão, junkie, cara de mau. Forçado, tudo forçado. E na escrita não seria
diferente: forçou, forçou, mas no fim das contas, um livrinho bem insosso. Como Bukowski,
só que não.

