O negócio é o seguinte: quando eu tinha uns 12 anos, fiz uma promessa para obter uma graça. Depois precisei de outra graça e fiz outra promessa em cima da promessa que eu já tinha feito, ou seja, aumentei a penitência. E aí surgiram outras e outras necessidades – é, eu andava com mania de promessas e meio tensa naquela época – e acabou que eu aumentei a promessa e disse que cumpriria a penitência todos os dias, até o fim dos meus dias. E depois até prometi que não faria mais promessas. O que eu combinei de fazer em agradecimento não era nada de mais, mas algo que exigia compromisso e tomava tempo. Como obtive as graças pedidas, fui pagando a promessa por um tempo, mas conforme cresci, foi ficando cada vez mais complicado. A vida adulta tem muito trabalho, muitas coisas para fazer, muito cansaço, fica difícil, sabe como é. Aí a minha dívida com você foi acumulando, acumulando e, agora, assim como os pequenos países africanos e a divida externa, não consigo mais pagar.
Pra falar a verdade, fazia tempo que eu não pensava nisso, já tinha deixado pra trás como uma promessa de criança, achando que o senhor relevaria. Mas sabe, Deus, um conhecido morreu jovem outro dia e tive a noção da finitude da vida. Aí fiquei com medo de morrer de repente também e deixar essa dívida em aberto contigo. Sabe como é, meu caro, morro de medo de virar alma penada. Fui criada numa família católica, cercada pela ameaça da culpa católica, o pecado original, a necessidade de ser temente ao senhor e toda aquela conversa que eles usam pra fazer bullying conosco nas missas e nos manter apavorados enquanto crescemos. Minha santa vovozinha, muito devotada à Igreja, pouco antes de partir deste mundo, até me recomendou que eu procurasse um padre para explicar minha situação e pedir que ele me indicasse uma outra penitência para substituir a tal penitência que eu não estava conseguindo cumprir.
Mas como o senhor – aliás, posso te chamar de você? - já deve ter se dado conta, existe muita burocracia na sua organização. Até pensei em falar mesmo com um subordinado seu, mas sabe de uma coisa? Acho que não ia adiantar nada, porque não acho que esses senhores, por mais instruídos e cientes dos trâmites da organização que sejam, não têm vivência nem integridade para me dizer o que fazer, não são mais puros ou merecedores da sua graça, sua amizade e complacência do que eu, minha falecida avó ou aquele cara ali parado na esquina, que vejo aqui da janela. Desculpa a sinceridade, mas já que estamos conversando sobre tudo mesmo, devo aproveitar a ocasião para abrir o jogo e dizer que uma outra questão importante nessa história é o fato de eu ter desistido de vez de tentar acreditar nos preceitos da Igreja. Não gosto da forma como o pessoal lá se refere a você – basicamente, como um cara de quem a gente tem de ter medo; da maneira como tratam as mulheres (por que não deixar as freiras rezar missas, por exemplo?); dessa história de padre não poder casar; de toda essa pompa que cerca o papa e os bispos; do fato de acobertarem casos de pedofilia, de serem contra o uso de contraceptivos e do sexo ser visto como uma fonte de pecado; e por aí vai. Se eu não acredito, não gosto de nada disso e não tenho nenhuma identificação com essa instituição, o quão hipócrita eu seria se recorresse a eles para resolver essa questão?
Mas espera aí, Deus, não me entenda errado. Acho que acredito mais em você do que muita gente que eu conheço. Mas não como aquele velhinho barbudo, de voz grossa e com um cajado, que de vez em quando troveja umas mensagens para os mensageiros que seleciona, como está escrito na Bíblia que você fez com o Noé. Na minha concepção, você é principalmente bondoso, paciente e cheio de amor para com a sua criação, que como seres finitos e tapados que somos, é passível de erros e acertos, num eterno aprendizado. Acredito que você quer que a gente aprenda sempre e, para isso, nos permite voltar muitas e muitas vezes, de muitas formas, até que possamos aprender e virar seres mais evoluídos. Afinal, isso é muito mais produtivo do que nos condenar a ficar tostando, borbulhando nuns caldeirões pra lá do centro da Terra, com umas criaturas chifrudas nos espetando com tridentes, não é? Se você é amor, bondade e compaixão, não faria isso com seus filhos. Afinal, um cara com tanto senso de humor, capaz de criar um bicho estapafúrdio como o ornitorrinco, não seria afeito a tanto sadismo.
E acima de tudo, Deus, nem acho que você seja mesmo uma pessoa. Correndo o risco de soar terrivelmente clichê, sei que você é tudo: está nas manhãs radiantes de outono, nos acordes das músicas divertidas que nos fazem dançar, nos bons livros, numa boa picanha mal-passada que o garçom serve quando mais temos fome, no banho geladinho de cachoeira no verão, no cheiro da nossa mãe quando somos pequenos e ela chega do trabalho, no pé de feijão que nasce tão bonitinho quando botamos um caroço no algodão embebido com água. Nos problemas que acontecem e nos fazem aprender. E até nos prazeres do sexo, no encontro com o outro, na troca de carinhos, na intimidade, no amor do homem com a mulher. Ou do homem com o homem e da mulher com a mulher. Porque você nos fez assim, imperfeitos, complexos, livres para aprender, para errar, tentar de novo e fazer tudo novamente e mais uma vez até nos acertarmos.
E diante de tudo isso, não faz sentido falar com um intermediário seu para ele sugerir que eu reze 5 Ave-Marias e 3 Pais-Nossos. Sabe, acho essas duas orações lindíssimas, mas imagino que você ia querer mais do que isso, algo mais útil, mais significativo. Que eu crie alguma coisa, que eu seja mais compreensiva, que procure sempre me manter aprendendo, criando, sorrindo. Então, aqui entre a gente, vamos resolver logo essa história? Para isso eu lhe proponho: você, ó Energia Criadora Divina, perdoa a minha dívida, me libertando da minha penitência e da culpa, do pecado original e aquela coisa toda que o cristianismo bota desde cedo na cabeça dos pequeninos; e em troca me comprometo a tentar sempre ser uma pessoa tolerante, capaz de perceber as sutilezas e o encanto da criação, ter paciência com meus irmãos, cuidado com o mundo que você nos deu e disposição para aproveitar a vida que você me deu com tanto carinho da forma mais criativa e apreciativa possível. Que tal? Veja bem, também é um compromisso diário e perpétuo, mas ao meu ver, e acredito que ao seu também (humildemente deduzindo, claro), muito mais útil.
Então fica aqui a minha mensagem. Como não sei a quem entregar, mas assumindo que você seja a eletricidade que alimenta este notebook, a brisa que refresca esta sala e, permita-me a ousadia, seja até meus olhos, minha boca e eu mesma, inteirinha, assim como todos os meus amigos e seres com quem me relaciono, considerarei este comunicado como entregue. Ok? Peço encarecidamente que, caso haja uma réplica, queixa ou objeção, me envie algum sinal que eu seja capaz de compreender, para que eu possa me acertar.
Sem mais, certa de sua compreensão, fico por aqui.
Com carinho,
TF
: ) adorei
ResponderExcluirGostei muitoooo!!!
ResponderExcluirCintia Belen
Bom vamos por partes como dizia jack o destripador, o texto é meio confuso, comecou bem depois se perdeu no medio e não entendi o final. Sin embargo, tenho que alentar e salientar um potencial, não sou um experto e é essa minha opinião
ResponderExcluirJorge
ps Não ´eminha lingua mas o português é muito engracado
Jorgito, agradeço muito pela sua colaboração ao meu estilo literário, vou pensar profundamente nas suas sugestões. Debaixo de minha humildade, espero um dia ter a capacidade de escrever um texto onde não exista a licença poética, mas apenas a perfeição... hehe
ExcluirThaís, querida !!!
ResponderExcluirAmei o seu texto, ficou muito bom... Sou suspeito em dar minha opinião... Sou um fã de longa data.
Beijão