sábado, 19 de maio de 2012

Pedro Juan Gutiérrez: “tipo Bukowski’ - só que ruim, colega



Peguei amizade com o dono do sebo aqui perto de casa. Temos o gosto para leitura mais ou menos parecido e conversamos, claro, sobre livros, principalmente de autores como Steinbeck, Kerouac, Fante e Bukowski, nosso favorito. Dia desses, comentando que eu achava que o velho safado deveria ter escrito mais ao longo da vida, para termos mais coisas pra ler, ele me falou, e não foi o primeiro, que eu devia experimentar alguma coisa do Pedro Juan Gutiérrez, um autor cubano nascido em 1950 que, segundo ele, escrevia de um jeito parecido com o do Bukowski. E acabei pegando “O Rei de Havana”, um dos mais famosos dele.
Sei que até soa estranho, mas adoro livro que, logo no comecinho, tem putaria, desesperança e personagens confusos e miseráveis. Você pensa logo que a obra promete e, nesse caso, “O Rei de Havana” prometia mesmo: a história já começa com a descrição bem direta da vida desgraçada de Reynaldo e seu irmão Nelson com a mãe obesa e maluca e a avó muda num apartamento de um cômodo em Havana. Nas primeiras páginas uma grande tragédia acontece, a família toda morre e Rey, único sobrevivente, é levado para um reformatório com 13 anos, acusado do assassinato da galera. Lá ele sofre, aprende a se virar e bla bla bla como em todo filme/livro/história de cadeia, até que foge e cai na vida das ruas sujas da capital cubana.

É bem nesse momento aí que você pensa que a história vai ficar agitada e esse vai ser um daqueles livros que vai ler em um dia e ficar até triste quando acabar. Mas aí, logo, logo, você descobre que não. Rey era um pateta. Ele não era mau, não era esperto, malandro nem esforçado, no sentido de se virar na vida. Ele não era engraçado nem pensava nada de interessante. Só que ele tinha um pau enorme e lindo, o que fez com que as pessoas (no sentido amplo da palavra) que ele comia o apelidassem de “O Rei de Havana” - daí o belo título do livro. E então a “história” segue: sexo após sexo, até o final pretensamente “chocante” – e altamente previsível - que o autor tenta criar.
De fato, os livros do Bukowski falam do submundo americano, de gente pobre, tarada, suja e desesperançada. Que só anda por aí trepando, correndo de trabalho e se entorpecendo de vinho para fugir da realidade. Descreve, por exemplo, o sexo com uma mulher mais velha, que tinha os pelos pubianos grisalhos e uma verruga triste na vagina, como em “Misto Quente”; ou como uma prostituta gorda e agressiva fez Hank Chinaski, seu alter ego adorável, gozar à força, masturbando-o violentamente num quarto de hotel barato, como em “Factotum”. São descrições perfeitas de cenas cruas, que você imagina direitinho, se diverte, se emociona, às vezes até se excita ou sente nojo, mas, invariavelmente, acaba desenvolvendo uma afeição pelo personagem e sentindo vontade de pagar uma caneca de vinho pra ele. E mais que isso, no meio de toda essa sacanagem, o velho Buko é capaz de escrever sobre os relacionamentos humanos com uma sensibilidade cruel e disfarçada que, se você não tomar cuidado, pode acabar te emocionando. Sempre lembro, por exemplo, desse trecho de “Mulheres”, talvez sua obra mais famosa:


“Sentia-me contente por não estar apaixonado, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo. As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes suscetíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o senso de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se, mesmo, assassinas.”


É grosseiro, é cru, mas tem um senso de humor e uma sensibilidade inegáveis. O personagem tem alma, ele pensa. O Rey, de Havana, o tal Rei de Havana, não pensa, não sente, não faz nada. É como uma anêmona com um piruzão. E como tal, só come e come. Não te faz rir nem desperta qualquer empatia. Quando o livro acaba você só pensa: “hum, que babaca”.  E aquela sensação de tempo perdido.
Na contracapa da edição da Companhia das Letras, a que eu li, tem a seguinte frase de Pedro Juan Gutiérrez: “Alguns dirão que meus textos são pornográficos, outros que são eróticos; alguns dizem que são religiosos e outros que são políticos numa segunda leitura. Eu não sei”. Eu também não sei. Religiosos não são, políticos também não (ou descrever o lugar como uma merda significa uma crítica política?). Pornográficos, sim, só. Eróticos, nunca. Chatos, piolhos, genitálias com cheiro de azedo e gosma branca, gente sem banho há semanas transando num lixão. Isso só deve ser erótico para um grupo bem restrito de pessoas com um fetiche específico. Para mim e, imagino, boa parte dos leitores, é só nojento e chato mesmo.

Claro que podem me dizer que eu deveria ler outros livros do cara pra poder construir melhor minha opinião. Mas não, não mesmo, não há tempo para tal. Aliás, eu devia ter imaginado. Sério, olha a foto dele:

Wannabe Hunter S. Thompson. Pose de machão, junkie, cara de mau. Forçado, tudo forçado. E na escrita não seria diferente: forçou, forçou, mas no fim das contas, um livrinho bem insosso. Como Bukowski, só que não.

3 comentários:

  1. É fácil criticar quando não se entende o núcleo e a realidade da obra. Pedro Juan escreve sobre a época mais crítica de cuba. Um comunismo degradado, chamado de "Período Especial" (década de 90). Onde Cuba sofre o embargo econômico americano e cai União Soviética. A única coisa que sobrou aos cubanos foi o sexo, o rum e a salsa.

    Pedro Juan escreveu magicamente Trilogia Suja de Havana e principalmente, Animal Tropical. Esses dois livros são verdadeiras obras de arte.

    A literatura do Pedro Juan tem MUITAS diferenças de Bukowski. É muito mais reflexiva e até descritiva. A narrativa é muito mais pausada e pontuada. Chego a dizer que mais suja e podre. A principal semelhança é que ambos escrevem sobre um cotidiano decadente (dentro das suas realidades) e com uma raiva cativante e sincera.

    Enfim, é uma pena que fique apenas nesse livro. Pois avaliar o Pedro Juan, apenas pelo Rei de Havana, e de maneira tão superficial, é triste.

    Realmente, o Rei de Havana não é o melhor livro dele, mas o dia que você quiser MESMO ler alguma outra obra dele, leia Animal Tropical que recebeu o Prêmio Afonso García-Ramos de Romance 2000, na Espanha, atribuído conjuntamente pelo Cabildo de Tenerife e Editorial Anagrama.

    Ou o mais famoso dele, Trilogia Suja de Havana.

    Rafael

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  2. Rafael, só vi o comentário agora. Que legal a sua disposição em defender o autor e sua obra. Com certeza você deve saber muito mais do que eu, do contexto e tudo mais. Mas não sei se estou ficando velha, cínica ou o que, não tenho nenhum saco para defender nada apaixonadamente nem entrar nesse tipo de debate. Tenho certeza de que a obra do Pedro Juan tem seu valor, só que achei o livro chatíssimo mesmo, e com tanto livro por aí que eu preciso ler, nos míseros 50 anos de vida que ainda espero ter pela frente, não me animo muito a ler mais nada dele, não tenho esse tipo de persistência. Mas gostei do seu comentário, e se um dia vir o "Animal Tropical" perdido em um desses sebos pela vida, pode ser até que eu dê uma nova chance para esse cubano. Mas só porque você me recomendou, hein. :)

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  3. Hahaha, olha eu aqui de novo (mesmo que agora como Jim e não Rafael hehe). Bah, é nessas horas que eu vejo como sou fã de Pedro Juan.

    Tava vasculhando a internet atrás de alguma informação sobre um possível livro novo e caí de novamente no teu post. :P Vi que me respondeu.

    Eu realmente não gosto de pensar demasiadamente pela emoção. Isso me cega e me deixa tendencioso a ignorante. Mas Pedro Juan realmente é meu maior ídolo terreno. E concordo com você, o livro Rey de Havana é ruim pra caralho. Reli ele depois que deixei o primeiro comentário e notei que o Pedrito se alongou demais. Deveria ter cortado umas 80 páginas. A obra acabou tornando-se cansativa e repetitiva ao extremo.

    Agora, sobre Animal Tropical e Trilogia Suja de Havana (quiçá Insaciável Homem-Aranha), eu continuo defendendo ferrenhamente. São livros fantásticos (para o meu gosto :P).

    O problema é que você começou pelo pior livro dele. E não recomendo Nosso GG em Havana, é ruim pra burro também.

    Enfim... não tentarei convencê-la... mas você foi tão apaziguadora, mesmo depois da minha "bronca" no primeiro comentário, que agora me obriguei a deixar esse comentário pedindo desculpas e tentando ser um pouco mais racional. Hahá.

    Bjs

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